Sábado, Novembro 21, 2009

Aíssa




*******************************

"I want everything" (Alexandre Magno)

*******************************
Quando a campainha tocou por volta da meia-noite, fiquei surpreso, afinal, isso não havia sido combinado. Encostei o cano do revólver na folha da porta (mais ou menos onde o indivíduo poderia estar além dela) e ouvi novamente o dedo pressionar o interruptor.

Quem é? - perguntei.

Sou eu.

A voz era familiar. Feminina. Antes de mais nada lancei a mensagem programada no celular (a mensagem padrão para o restante do pessoal chegar minutos depois - eles já sabiam, já haviam sido alertados), então abri a porta totalmente. Bem ali, olhando para mim, estava uma mulher que eu nunca havia visto.

Precisa de alguma coisa, menina?

Esse "menina", uma herança do meu pai. Para ele, todas as mulheres eram meninas, tivessem cinquenta anos ou vinte.

Não. Eu só estou aqui. Vai me deixar entrar?

Eu via que apesar daquela maquiagem toda, ela aparentava ser bonita. Deixei que entrasse.

Caminhei até o espelho e ajustei o colarinho da camisa enquanto eu ouvia os passos da menina pela sala.

Aonde vai? - ela perguntou, vindo até o quarto.

Lugar nenhum. Vou girar por aí, tomar alguma coisa, ver alguém e depois voltar para cá, como sempre faço. O círculo só muda quando eu resolvo mudar.

A água caía do bambu sonoramente e o vento remexia os cristais pendurados por fios de nylon.

Você veio aqui para transar? - perguntei virando-me para Aíssa (eu ainda não sabia o nome dela, mas não demoraria muito para saber) - ou você veio aqui para morrer?

Por que me pergunta isso?

Porque você não é a primeira.

Eu vim aqui para morrer - ela disse, mas não conseguiu manter-se séria. E eu não entendi por quê.

O que você vai querer até lá? - perguntei.

Tudo.

Tudo?

Se possível. Você é capaz disso?, digo, de me dar tudo o que eu não tive na vida num espaço curto de apenas algumas horas?

Tudo é muita coisa. Todos nós procuramos uma vez ou outra abraçar a tudo, mas não conseguimos manter um terço disso. A história começa por aí - comentei - Mas, se você quer tudo, eu vou te dar. Tome, faça uma lista. Eu tenho que saber o "tudo" que você quer.

E ela escreveu o tudo.

("E então? O que aconteceu depois?")

("Isso eu prefiro não contar. Te deixaria chocado, e isso eu não quero, já que é meu amigo a tanto tempo, Túlio")

("Você está me chamando de bichinha?")

("Talvez... pode ser que sim... seu bichinha")

{Risada.}

("Se você não me contar em detalhes, quando eu te ver na rua vou fingir que não te conheço")

{Outra risada.}

("Li não sei onde que há coisas que não podem nem ser faladas nem escritas")

("Ah, é? E por quê?")

("Porque nesse caso seríamos todos 'marqueses de Sade'. Tem coisas que pessoas bastante comuns já fizeram que um Marquês de Sade original jamais sonharia")

("Ok. Então me conte ao menos o suportável para um sujeito quase cristão como eu")

("Vou contar")

Quando Aíssa terminou de escrever, o que não durou muito tempo, chegaram os outros.

Vai ser essa daqui? - disseram, entrando pela porta e olhando para Aíssa.

Essa mesmo.

Ela já fez a lista - comentei.

Eles sabiam como era o procedimento. Foram para o quarto e trancaram a porta. Ficaram lá.

Na sala somente eu e Aíssa.

O que ela escreveu, eu ainda tenho comigo. Eu mesmo não consegui aguentar ler tudo e concordar com tudo, mas então fiz uma versão mais tolerante da qual eu pudesse me lembrar. Eu tenho ela aqui comigo. Eis.

Túlio pegou o papel e leu.

Santo Deus.

Pois é.

E você conseguiu agir conforme as ordens que estão escritas nesse papel?

Sim. E outras, que você não leu porque eu cortei da versão original.

Caramba... e quanto a essa Aíssa? Tem uma foto dela aí?

Tenho. De corpo inteiro. /entrega a foto para Túlio/ Ela disse que, mesmo de corpo inteiro e nua, sabia que nunca havia sido tão bela que pudesse aparecer na foto como ela achava que se sentia bela. As fotos causavam melancolia em Aíssa. Dizia que aquele corpo já não rondando seus anos de juventude não era mais do que um corpo parado, um corpo raspado e limpo e ainda mais parado e limpo e depois limpo novamente do que qualquer outro, um corpo que ela nem aceitava mais como o dela mesma. Perguntava-se ainda como os sujeitos conseguiam sentir desejo por ela apesar de seu corpo ser parado e limpo e tão só aquele e nenhum outro mais que aquele. E eu respondi que era porque o destino dela era ser desejada, porque assim ocorria com todas, exceto as extremamente feias, mas que, ainda assim, ela não era extremamente feia.

Depois disso aconteceu assim, segundo a lista que Aíssa fez, e eu pedi que tirasse a roupa porque nada do que ela tinha me escrito na lista envolvia estar vestida. E então foi assim...

[Essa parte, meus ilustres leitores puritanos, foi suprimida para o blog geral, pelo alto teor de tudo que não é imaginado por pessoas de família e cristãs - ou seja, boa parcela dos que leem esta página. Portanto, caso achem que conseguem superar a leitura deste trecho, basta me enviar uma solicitação do mesmo por e-mail].

[...] No fim, ela estava muda. Paralizada com os olhos a voltear por um teto infinito sobre sua cabeça. Vazia. Estava vazia e agora podíamos passar ao procedimento principal.

Ainda, ela me pediu que dissesse uma coisa que me deixou bastante comovido, porque eu embalei nas lágrimas que iam se formando pouco a pouco em torno dos seus olhos.

E que coisa é essa - eu perguntei a ela.

Quero que você diga assim: "Eu não te amo. Só tenho tesão por você".

De imediato, perguntei o por quê daquilo. Ela me disse que, ao longo da vida, havia conhecido muitos caras que diziam que a amavam, mas neles ela só conseguira perceber que buscavam satisfação sexual. Nunca fora capaz de conhecer o amor, embora tivesse tantas vezes ouvido tal palavra sair da boca dos rapazes que com ela na cama haviam se deitado.

Eu não te amo, Aíssa. Só tenho tesão por você - eu disse, olhando bem de perto para seus olhos lacrimejantes, e sentindo em meu rosto o seu hálito morno de uma respiração compassada.

Muito obrigado - ela disse, me abraçando - Estou pronta agora.

Dei um toque aos demais no quarto próximo, pelo celular. Eles abriram a porta e vieram até a sala.

Pronto, chefe - perguntaram.

Sim.

Aíssa fechou os olhos. Dentro de poucos minutos seu corpo não existiria mais. Nem uma só cinza, a qual nos encarregaríamos de dar um fim também. E assim, ela, que não fora, poderia dali a poucos instantes voltar a não ser o que era que havia sido, apesar de jamais sê-lo, porém, não ser nem um, nem outro, mas quase o oposto disso, ou voltar a ser exatamente aquilo de fato, ou ainda não, se talvez não quisesse, porque se assim o fosse, assim seria. Ou não.

{Sim, porque o riso também é um remédio}

Blim, blom.

Feito.

Vamos embora.

Marcadores: ,

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

A polêmica dos bicos rosas


Mal publiquei nesta via tão ágil que é o blog, semana passada, o conto "Os bicos rosas dos seios" e desde então, nunca recebi tantos e-mails. Eis a questão: Eu não pensei que tal história, escrita como outra história qualquer, fosse causar tanta discussão.
Nos primeiros dias predominaram e-mails de leitores mais próximos de mim. Em seguida, outros, não tão próximos assim, e, no final da primeira semana, já havia gente que eu nunca tinha visto comentando o conto.
Alguns tipos irados, e outros que fizeram excelentes análises. A Bruna foi um exemplo disso. Você, Bruna, soube ler o texto com muita lucidez. Parabéns.
Bem, mas aqui não vou comentar sobre a própria natureza dos comentários, mas sobre a natureza das polêmicas.
Nos e-mails que eu li, que ultrapassaram a marca de cem, o ponto que mais repercutiu no público era relacionado à matéria do sexo incluído no conto. E o que eu digo quanto a isso é: Não estamos mais em épocas de puritanismos, não é mesmo? A libertação sexual que veio lá atrás, na década de 1970, já é um fato até que velho por demasia e, fico bastante intrigado quando questionam um tema sexual quando a sexualidade está em todos. Ops. Em todos não: Excetue-se frígidas e homens que tiveram o "membro" decepado na guerra.
Logicamente, na literatura, quando se fala de sexo, se descreve cenas de sexo, isso não deve ser gratuito. Senão desemboca em subliteraturas como as que a Surfistinha ou outras mulheres que "conhecem o mundo sexual" fazem. Não é disso que eu trato no conto. É de outra coisa, a qual a Bruna acertou em sua análise (através de um longo, mas plausível, texto). E, confetes para ela!
Alguém já me disse uma vez assim: "Nossa, Rui, mas você fala bastante de sexo nas coisas que você escreve".
Como redarguir a isso? Talvez para essa pessoa o sexo não seja uma coisa normal, mas para mim, eu não vejo motivo para excluir isso das relações humanas dos personagens perpassadas nos contos ou quaisquer outros escritos meus. Até porque está atrelada à relação sexual muito da alma humana. Uma miríade de comportamentos, de ações e de sentimentos são estimulados ou vetados pela intimidade entre duas pessoas (ou três, ou quatro... dependendo da preferência). Sabemos que o sexo está mais do que vinculado à personalidade contemporânea (exclua-se praticantes de religiões demasiado radicais) e há muito tempo não é para mera reprodução da espécie. Pelo contrário: busca se o prazer. Simples assim.
Nesse caso, há muitos criacionistas que profetizam que num futuro não muito distante a própria procriação esteja totalmente relegada a laboratórios, e o sexo continue existindo apenas por um dos atributos com o qual contribui: o prazer.
E o que eu acho estranho é esse tema ainda continuar sendo estimulador de polêmicas. Eric Hobsbawn já tinha dito alguns anos atrás: "Estamos na era dos extremos (constatação essa que deu nome a um dos seus livros mais importantes)". Sendo assim, nada mais é impensável. As aspirações humanas navegam em alta velocidade, quase voam, para que assim possam justificar suas vidas sobre a Terra. E creio que quando vivenciamos uma era de extremos, as polêmicas acabam por se tornar meras lendas pertencentes a épocas em que os povos ainda não tinham se libertado completamente de seus fardos políticos e/ou ideológicos. Afinal, sempre surgirão novos tabus. E isso para depois esses mesmos tabus serem desfeitos e os gentis chamarem a isso "progresso".
---
Se você ainda não leu o conto, leia, clicando aqui.

Marcadores:

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Os bicos rosas dos seios




******************************************
(Ao meu amigo Diego, que sabe como as coisas são)
******************************************

"Mesmo eles e elas, que estudavam, ainda eram tontos, a cada momento, em suas vidas limitadas e inexpressivas". (Bernard Shaw)


Foi quando me separei de Flora que entrei num período soturno. Eu havia chegado a um estado em que não conseguia ver satisfação nenhuma naquele relacionamento que mantínhamos. Só o que eu não esperava era que, depois disso, a minha relação com as mulheres fosse mudar completamente.

Era março. Chovia. A temporada universitária de caça começava. Numa república em que nos reuníamos, as meninas mandavam e os homens obedeciam, e ninguém achava que isso fosse mau. Nessa época, eu gostava de todos os rocks possíveis que me embalavam para os limites da vida. Não apenas cada lance de guitarra, mas cada elemento novo do conceitual teórico aprendido das tão obscuras ciências humanas junto das corridas matinais me despertavam. Decidi, pois, me perder no todo depois que vi que tentar morar sucessivas vezes com garotas só trazia dores de cabeça (além de temores sucessivos de filhos imprevistos), então me mudei. Aproveitei a mudança para dizer a Flora que eu não queria mais estar com ela. E ela aceitou compreensivamente, por sorte.

O que eu não previa era que, naqueles sábados noturnos e turbulentos, em que todos ficavam bêbados e copulavam até caírem exaustos, naquele ambiente onde a entrada de rapazes era restrita ao extremo, e predominavam meninas libertárias e independentes (que gostavam de sentir prazer e não viam nada de mau nisso), eu, em minha nova guinada, não sentia satisfação nenhuma.

Durante as manhãs eu me debruçava sobre os livros. À tarde eu saía para dar uma volta, que nunca tinha destino certo. Os moradores do condomínio fechado em que a república era mantida, predominantemente do sexo feminino, iam e vinham. As quadras eram grandes (havia duas) e muitas dessas garotas se reuniam para jogar vôlei ou basquete, com suas calças de lycra super-apertadas sem calcinha por baixo e os seios já desenvolvidos segurados por regatas firmes. Outra parte delas se distribuía em torno da piscina, onde tomavam sol e nadavam, conversando sobre as festas que haviam ocorrido recentemente. Eu, preguiçoso, hesitava em pegar o carro, enfrentar o trânsito soporífero cheio de motoristas imbecis atravessando o sinal vermelho, então, nunca saía muito das redondezas.

Quando à noite, as aulas. Nada mais do que ouvir, ouvir, e ouvir com atenção. No retorno delas, havia sempre gente com som ligado nos apartamentos dos pequenos prédios, quase todos os quartos estavam frequentemente abertos e muitas vozes eram ouvidas por ali. Já era normal entre aqueles que lá viviam a vista quotidiana de nudez. Garotas jovens, mesmo as que haviam acabado de chegar, andavam para lá e para cá de calcinha e livres de sutiã, rindo alto procurando cervejas e onde podiam se aninhar para praticar um pouco dos "jogos internos". Já eu, arrefecia.

Arrefecia mesmo ainda nem sequer tendo chegado aos trinta.

Tudo piorou certa noite em que Nina investiu. Cansada de esperar, vendo minha pachorra de rapaz que não se decidia, que só sabia ficar com meus livros e mais livros, ela me confessou que não estava mais aguentando. Tinha de ser naquela noite. Nina... Como eu posso me esquecer dela? Era um tipo estonteante. Muitos diziam que era virgem, apesar dos dezenove anos de idade. Ela carregava em si tudo que podia atrair um homem: Tinha a pele muito bronzeada e marquinhas brancas de biquini nos seios e também na parte de baixo, no caminho até a vulva, como era moda entre as garotas. Eu disse que tudo bem, e perguntei por que ela não me disse logo aquilo enquanto foi tirando a roupa. Estava frenética. Eu, como de costume antes de dormir, só estava coberto pelo lençol da cama e então Nina veio para mim. "Apague a luz", eu disse. "Não. Com a luz acesa", ela respondeu.

E a luz era tripla, fosforescente, de forma que eu via o corpo de Nina de forma nítida em todas as partes, e ela via o meu também. Quando sentou-se sobre mim, apertei os seus seios tão cheios e mornos, e os beijei. Duas horas mais tarde eu reconheceria que não era mais do que se eu tivesse apertado dois pedaços de borracha. Ela mordia o meu peito, começando aquele caminho que vai para baixo e que demora um pouco para subir, mas antes eu a puxei para cima, pois ainda não queria aquilo que ela estava para fazer. As garotas podiam ser maioria esmagadora e mandar em nós durante o dia. Mas, de madrugada, éramos nós que mandávamos.

Nina era garota que gostava de perfumes. Tanto que, quando lambi o lóbulo das suas orelhas, senti o leve gosto de álcool concentrado. Deslizei a língua para o peito. Idem. E então passei a morder seus ombros, que tinham aquele mesmo gosto etílico que não se cansava de invadir o meu paladar. Dissuadido, deixei que fizesse o que antes queria e, depois que se cansou (o que foi bem rápido, em comparação às demais), veio para cima de mim e disse "Agora eu". As pernas de Nina eram lisas e grossas, de leve tonalidade bronzeada. E em seu púbis não havia um só pêlo. Fiz o que ela pediu, porém, com a sensação que eu tinha roçado a língua numa ostra aberta recém-aquecida no forno micro-ondas e passei, tão logo percebi o efeito extático no qual ela queria atingir, ao passo seguinte. O cabelo de Nina cheirava a diferentes cremes enquanto eu os puxava para trás com força. E tudo foi assim.

Apesar de minha postura viril naquela noite, tudo foi muito difícil para mim, porque, muito embora Nina possuísse curvas corporais deliciosas, tinha um rosto esquisito e falava coisas não raro imbecis. Era bastante atraente. Mas, afinal, igual a ela havia milhares de outras. Por que eu tinha feito aquilo? Na segunda noite em que Nina veio, creio que compungido por esse pensamento, a ereção não veio e, após sucessivas discussões, em que ela me dizia que eu muito bem podia usar o dedo, consegui com que fosse embora. Estava eu então comigo mesmo. E isso era reconfortante.

A partir de então eu passei a olhar cada garota (das ruivas às morenas; das que tinham seios pequenos de ninfeta às peitudas; das que tinham grossos lábios àquelas que não tinham quase nenhum; das que eram acanhadas às devassas; das que tinham traseiros avantajados às que quase não tinham) com um olhar cinzento e condescendente. Elas passavam à minha frente todo o tempo, entrando e saindo de carros, lavando a fachada de seus predinhos, indo se bronzear na piscina, e eu nada via nelas que fustigasse meu apetite. Nada que eu havia sido antes eu era agora. Me contentava em voltar para casa e assistir a algum filme, ir no boliche aos finais de semana, ou ao cinema com os colegas do bairro. Eu continuava sendo homem, afinal? Nada nelas me atraía. Tampouco, caro e inteligente leitor de suposições falhas, isso quer dizer que eu estivesse começando a ficar atraído por homens, mas simplesmente isso: um acúmulo de cinzas parecia pouco a pouco se deitar sobre minha virilidade.

Eu as olhava como bonecas que desfilavam entre os corredores. Tinham sua menstruação, defecavam, trabalhavam e faziam planos, como todas as outras. Algumas se enfeitavam compulsivamente. Andavam em bandos e eu mesmo não imaginava que fossem capazes de andar sozinhas. As feias se misturavam às bonitas. As bonitas não queriam pertencer ao mesmo grupo por odiarem concorrência. Todas eram regidas pelos mesmos valores. Incrivelmente amavam e confiavam em Deus, mas isso vinha apenas como um gesto mecânico. Os outros 99% do tempo passavam angustiadas com a reflexão de se o sistema econômico do país seria generoso com elas e poderiam ter, cada uma, a sua casa luxuosa, um carro esporte e um marido bem-sucedido. Dez por cento delas, talvez menos, chegaria a isso um dia. Mas então entravam a defecar, a falar e a comer, enquanto não chegasse o primeiro milhão, a viagem internacional...

Eram programadas aquelas existências.

Uma a uma amaria e não amaria. Por vezes só contariam ao grupo que estavam amando num interesse não de amor verdadeiro, mas apenas no intuito de dar corda a uma conversa entre as pessoas do mesmo. Qualquer coisa que fosse sugerida de diferente provocaria a indagação: "Mas demora?", ou "Mas é muito longe?", ou ainda "Mas não pode ser na próxima semana?"...

_ Nina, pare com isso! Não, pela última vez, não! - eu disse.

Inconformada, Nina utilizou bem seu esquema limitado de táticas femininas para atrair a minha atenção depois disso. Ficava sempre ladeando rapazes, rindo muito, com a menor naturalidade possível, sempre olhando furtivamente para os lados quando previa que eu estava para chegar. Saía com eles e divulgava amplamente. Me mandava fotos no celular com ela chupando falos (o celular em que ela sabia que tinha entrada quebrada e do qual as fotos jamais sairiam), e dizendo que aquele falo recente que ela chupava poderia ser o meu, e "que era bem feito para mim não ser". "Que eu tomasse no cu", ela desejava por mensagens para o mesmo celular.

Pouco depois me procurou. Arrefeceu a priori. Disse palavras suaves. Todavia, depois, terminou seu palavrório sensato com chiliques. Voltou a sair com homens. Passado um mês, veio falar comigo novamente. Um pouco mais de palavrório suave. Dessa vez, sem chiliques. "O que mais você quer de mim? Hein? O quê?", dizia, embargando a voz.

_ Nada, Nina. Eu não quero absolutamente nada.

Em seguida disse que eu era um arrombado mesmo e mandou outra vez que eu fosse tomar no cu. Nos dias consecutivos espalhou pelo campus que eu era uma "bicha enrustida", informação a qual não seria difícil desmentir, dada a inteligência bastante restrita de Nina, mas eu deixei tudo como estava.

Alguns vieram perguntar a mim se eu era mesmo veado e eu às vezes confirmava o fato, seriamente. Ora, eu queria que Nina no fundo suspirasse, com a ideia de que havia triunfado. E assim foi.

Dois meses depois ela me ligou, dizendo que ia se matar. Quanto a isso, eu também deixei.

Então, depois desse mínimo fator, pude retomar minha vida. E o problema (seria realmente um problema ou uma aceitação natural da minha parte?) ainda estava lá. Ou seja: mesmo inserido num meio licencioso e agradável como aquele, nem sequer uma ereção despontava em mim. Observava as lindas garotas passeando entre os prédios do condomínio com os olhos baços. Mesmo os bicos rosas dos seios, que antes tanto me excitavam ao vê-los, eram agora para mim nada mais que montículos de carne num lugar definido e previsível do corpo.

Nas noites, no retorno das aulas, eu comia alguma porcaria industrializada olhando pela janela o pessoal tomar vodkas e martinis ao redor da piscina até quase de manhã (às vezes descia para ir beber com eles) enquanto nos quartos contíguos casais resfolegavam sem pretensão de fazer pouco barulho. Ruídos esses que já não me surtiam efeito.

Talvez um dia "ele" voltasse a subir. Talvez.

É possível.

Marcadores: ,