Aíssa

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"I want everything" (Alexandre Magno)
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Quando a campainha tocou por volta da meia-noite, fiquei surpreso, afinal, isso não havia sido combinado. Encostei o cano do revólver na folha da porta (mais ou menos onde o indivíduo poderia estar além dela) e ouvi novamente o dedo pressionar o interruptor.
Quem é? - perguntei.
Sou eu.
A voz era familiar. Feminina. Antes de mais nada lancei a mensagem programada no celular (a mensagem padrão para o restante do pessoal chegar minutos depois - eles já sabiam, já haviam sido alertados), então abri a porta totalmente. Bem ali, olhando para mim, estava uma mulher que eu nunca havia visto.
Precisa de alguma coisa, menina?
Esse "menina", uma herança do meu pai. Para ele, todas as mulheres eram meninas, tivessem cinquenta anos ou vinte.
Não. Eu só estou aqui. Vai me deixar entrar?
Eu via que apesar daquela maquiagem toda, ela aparentava ser bonita. Deixei que entrasse.
Caminhei até o espelho e ajustei o colarinho da camisa enquanto eu ouvia os passos da menina pela sala.
Aonde vai? - ela perguntou, vindo até o quarto.
Lugar nenhum. Vou girar por aí, tomar alguma coisa, ver alguém e depois voltar para cá, como sempre faço. O círculo só muda quando eu resolvo mudar.
A água caía do bambu sonoramente e o vento remexia os cristais pendurados por fios de nylon.
Você veio aqui para transar? - perguntei virando-me para Aíssa (eu ainda não sabia o nome dela, mas não demoraria muito para saber) - ou você veio aqui para morrer?
Por que me pergunta isso?
Porque você não é a primeira.
Eu vim aqui para morrer - ela disse, mas não conseguiu manter-se séria. E eu não entendi por quê.
O que você vai querer até lá? - perguntei.
Tudo.
Tudo?
Se possível. Você é capaz disso?, digo, de me dar tudo o que eu não tive na vida num espaço curto de apenas algumas horas?
Tudo é muita coisa. Todos nós procuramos uma vez ou outra abraçar a tudo, mas não conseguimos manter um terço disso. A história começa por aí - comentei - Mas, se você quer tudo, eu vou te dar. Tome, faça uma lista. Eu tenho que saber o "tudo" que você quer.
E ela escreveu o tudo.
("E então? O que aconteceu depois?")
("Isso eu prefiro não contar. Te deixaria chocado, e isso eu não quero, já que é meu amigo a tanto tempo, Túlio")
("Você está me chamando de bichinha?")
("Talvez... pode ser que sim... seu bichinha")
{Risada.}
("Se você não me contar em detalhes, quando eu te ver na rua vou fingir que não te conheço")
{Outra risada.}
("Li não sei onde que há coisas que não podem nem ser faladas nem escritas")
("Ah, é? E por quê?")
("Porque nesse caso seríamos todos 'marqueses de Sade'. Tem coisas que pessoas bastante comuns já fizeram que um Marquês de Sade original jamais sonharia")
("Ok. Então me conte ao menos o suportável para um sujeito quase cristão como eu")
("Vou contar")
Quando Aíssa terminou de escrever, o que não durou muito tempo, chegaram os outros.
Vai ser essa daqui? - disseram, entrando pela porta e olhando para Aíssa.
Essa mesmo.
Ela já fez a lista - comentei.
Eles sabiam como era o procedimento. Foram para o quarto e trancaram a porta. Ficaram lá.
Na sala somente eu e Aíssa.
O que ela escreveu, eu ainda tenho comigo. Eu mesmo não consegui aguentar ler tudo e concordar com tudo, mas então fiz uma versão mais tolerante da qual eu pudesse me lembrar. Eu tenho ela aqui comigo. Eis.
Túlio pegou o papel e leu.
Santo Deus.
Pois é.
E você conseguiu agir conforme as ordens que estão escritas nesse papel?
Sim. E outras, que você não leu porque eu cortei da versão original.
Caramba... e quanto a essa Aíssa? Tem uma foto dela aí?
Tenho. De corpo inteiro. /entrega a foto para Túlio/ Ela disse que, mesmo de corpo inteiro e nua, sabia que nunca havia sido tão bela que pudesse aparecer na foto como ela achava que se sentia bela. As fotos causavam melancolia em Aíssa. Dizia que aquele corpo já não rondando seus anos de juventude não era mais do que um corpo parado, um corpo raspado e limpo e ainda mais parado e limpo e depois limpo novamente do que qualquer outro, um corpo que ela nem aceitava mais como o dela mesma. Perguntava-se ainda como os sujeitos conseguiam sentir desejo por ela apesar de seu corpo ser parado e limpo e tão só aquele e nenhum outro mais que aquele. E eu respondi que era porque o destino dela era ser desejada, porque assim ocorria com todas, exceto as extremamente feias, mas que, ainda assim, ela não era extremamente feia.
Depois disso aconteceu assim, segundo a lista que Aíssa fez, e eu pedi que tirasse a roupa porque nada do que ela tinha me escrito na lista envolvia estar vestida. E então foi assim...
[Essa parte, meus ilustres leitores puritanos, foi suprimida para o blog geral, pelo alto teor de tudo que não é imaginado por pessoas de família e cristãs - ou seja, boa parcela dos que leem esta página. Portanto, caso achem que conseguem superar a leitura deste trecho, basta me enviar uma solicitação do mesmo por e-mail].
[...] No fim, ela estava muda. Paralizada com os olhos a voltear por um teto infinito sobre sua cabeça. Vazia. Estava vazia e agora podíamos passar ao procedimento principal.
Ainda, ela me pediu que dissesse uma coisa que me deixou bastante comovido, porque eu embalei nas lágrimas que iam se formando pouco a pouco em torno dos seus olhos.
E que coisa é essa - eu perguntei a ela.
Quero que você diga assim: "Eu não te amo. Só tenho tesão por você".
De imediato, perguntei o por quê daquilo. Ela me disse que, ao longo da vida, havia conhecido muitos caras que diziam que a amavam, mas neles ela só conseguira perceber que buscavam satisfação sexual. Nunca fora capaz de conhecer o amor, embora tivesse tantas vezes ouvido tal palavra sair da boca dos rapazes que com ela na cama haviam se deitado.
Eu não te amo, Aíssa. Só tenho tesão por você - eu disse, olhando bem de perto para seus olhos lacrimejantes, e sentindo em meu rosto o seu hálito morno de uma respiração compassada.
Muito obrigado - ela disse, me abraçando - Estou pronta agora.
Dei um toque aos demais no quarto próximo, pelo celular. Eles abriram a porta e vieram até a sala.
Pronto, chefe - perguntaram.
Sim.
Aíssa fechou os olhos. Dentro de poucos minutos seu corpo não existiria mais. Nem uma só cinza, a qual nos encarregaríamos de dar um fim também. E assim, ela, que não fora, poderia dali a poucos instantes voltar a não ser o que era que havia sido, apesar de jamais sê-lo, porém, não ser nem um, nem outro, mas quase o oposto disso, ou voltar a ser exatamente aquilo de fato, ou ainda não, se talvez não quisesse, porque se assim o fosse, assim seria. Ou não.
{Sim, porque o riso também é um remédio}
Blim, blom.
Feito.
Vamos embora.
Quem é? - perguntei.
Sou eu.
A voz era familiar. Feminina. Antes de mais nada lancei a mensagem programada no celular (a mensagem padrão para o restante do pessoal chegar minutos depois - eles já sabiam, já haviam sido alertados), então abri a porta totalmente. Bem ali, olhando para mim, estava uma mulher que eu nunca havia visto.
Precisa de alguma coisa, menina?
Esse "menina", uma herança do meu pai. Para ele, todas as mulheres eram meninas, tivessem cinquenta anos ou vinte.
Não. Eu só estou aqui. Vai me deixar entrar?
Eu via que apesar daquela maquiagem toda, ela aparentava ser bonita. Deixei que entrasse.
Caminhei até o espelho e ajustei o colarinho da camisa enquanto eu ouvia os passos da menina pela sala.
Aonde vai? - ela perguntou, vindo até o quarto.
Lugar nenhum. Vou girar por aí, tomar alguma coisa, ver alguém e depois voltar para cá, como sempre faço. O círculo só muda quando eu resolvo mudar.
A água caía do bambu sonoramente e o vento remexia os cristais pendurados por fios de nylon.
Você veio aqui para transar? - perguntei virando-me para Aíssa (eu ainda não sabia o nome dela, mas não demoraria muito para saber) - ou você veio aqui para morrer?
Por que me pergunta isso?
Porque você não é a primeira.
Eu vim aqui para morrer - ela disse, mas não conseguiu manter-se séria. E eu não entendi por quê.
O que você vai querer até lá? - perguntei.
Tudo.
Tudo?
Se possível. Você é capaz disso?, digo, de me dar tudo o que eu não tive na vida num espaço curto de apenas algumas horas?
Tudo é muita coisa. Todos nós procuramos uma vez ou outra abraçar a tudo, mas não conseguimos manter um terço disso. A história começa por aí - comentei - Mas, se você quer tudo, eu vou te dar. Tome, faça uma lista. Eu tenho que saber o "tudo" que você quer.
E ela escreveu o tudo.
("E então? O que aconteceu depois?")
("Isso eu prefiro não contar. Te deixaria chocado, e isso eu não quero, já que é meu amigo a tanto tempo, Túlio")
("Você está me chamando de bichinha?")
("Talvez... pode ser que sim... seu bichinha")
{Risada.}
("Se você não me contar em detalhes, quando eu te ver na rua vou fingir que não te conheço")
{Outra risada.}
("Li não sei onde que há coisas que não podem nem ser faladas nem escritas")
("Ah, é? E por quê?")
("Porque nesse caso seríamos todos 'marqueses de Sade'. Tem coisas que pessoas bastante comuns já fizeram que um Marquês de Sade original jamais sonharia")
("Ok. Então me conte ao menos o suportável para um sujeito quase cristão como eu")
("Vou contar")
Quando Aíssa terminou de escrever, o que não durou muito tempo, chegaram os outros.
Vai ser essa daqui? - disseram, entrando pela porta e olhando para Aíssa.
Essa mesmo.
Ela já fez a lista - comentei.
Eles sabiam como era o procedimento. Foram para o quarto e trancaram a porta. Ficaram lá.
Na sala somente eu e Aíssa.
O que ela escreveu, eu ainda tenho comigo. Eu mesmo não consegui aguentar ler tudo e concordar com tudo, mas então fiz uma versão mais tolerante da qual eu pudesse me lembrar. Eu tenho ela aqui comigo. Eis.
Túlio pegou o papel e leu.
Santo Deus.
Pois é.
E você conseguiu agir conforme as ordens que estão escritas nesse papel?
Sim. E outras, que você não leu porque eu cortei da versão original.
Caramba... e quanto a essa Aíssa? Tem uma foto dela aí?
Tenho. De corpo inteiro. /entrega a foto para Túlio/ Ela disse que, mesmo de corpo inteiro e nua, sabia que nunca havia sido tão bela que pudesse aparecer na foto como ela achava que se sentia bela. As fotos causavam melancolia em Aíssa. Dizia que aquele corpo já não rondando seus anos de juventude não era mais do que um corpo parado, um corpo raspado e limpo e ainda mais parado e limpo e depois limpo novamente do que qualquer outro, um corpo que ela nem aceitava mais como o dela mesma. Perguntava-se ainda como os sujeitos conseguiam sentir desejo por ela apesar de seu corpo ser parado e limpo e tão só aquele e nenhum outro mais que aquele. E eu respondi que era porque o destino dela era ser desejada, porque assim ocorria com todas, exceto as extremamente feias, mas que, ainda assim, ela não era extremamente feia.
Depois disso aconteceu assim, segundo a lista que Aíssa fez, e eu pedi que tirasse a roupa porque nada do que ela tinha me escrito na lista envolvia estar vestida. E então foi assim...
[Essa parte, meus ilustres leitores puritanos, foi suprimida para o blog geral, pelo alto teor de tudo que não é imaginado por pessoas de família e cristãs - ou seja, boa parcela dos que leem esta página. Portanto, caso achem que conseguem superar a leitura deste trecho, basta me enviar uma solicitação do mesmo por e-mail].
[...] No fim, ela estava muda. Paralizada com os olhos a voltear por um teto infinito sobre sua cabeça. Vazia. Estava vazia e agora podíamos passar ao procedimento principal.
Ainda, ela me pediu que dissesse uma coisa que me deixou bastante comovido, porque eu embalei nas lágrimas que iam se formando pouco a pouco em torno dos seus olhos.
E que coisa é essa - eu perguntei a ela.
Quero que você diga assim: "Eu não te amo. Só tenho tesão por você".
De imediato, perguntei o por quê daquilo. Ela me disse que, ao longo da vida, havia conhecido muitos caras que diziam que a amavam, mas neles ela só conseguira perceber que buscavam satisfação sexual. Nunca fora capaz de conhecer o amor, embora tivesse tantas vezes ouvido tal palavra sair da boca dos rapazes que com ela na cama haviam se deitado.
Eu não te amo, Aíssa. Só tenho tesão por você - eu disse, olhando bem de perto para seus olhos lacrimejantes, e sentindo em meu rosto o seu hálito morno de uma respiração compassada.
Muito obrigado - ela disse, me abraçando - Estou pronta agora.
Dei um toque aos demais no quarto próximo, pelo celular. Eles abriram a porta e vieram até a sala.
Pronto, chefe - perguntaram.
Sim.
Aíssa fechou os olhos. Dentro de poucos minutos seu corpo não existiria mais. Nem uma só cinza, a qual nos encarregaríamos de dar um fim também. E assim, ela, que não fora, poderia dali a poucos instantes voltar a não ser o que era que havia sido, apesar de jamais sê-lo, porém, não ser nem um, nem outro, mas quase o oposto disso, ou voltar a ser exatamente aquilo de fato, ou ainda não, se talvez não quisesse, porque se assim o fosse, assim seria. Ou não.
{Sim, porque o riso também é um remédio}
Blim, blom.
Feito.
Vamos embora.




